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Projeto Libertar: palestra da Polícia Civil de Camaquã pode virar Lei Estadual

O sucesso do projeto em conscientizar os jovens resultou em maiores denúncias e cumprimento da lei em casos de estupros


Por Kathrein Silva Publicado 12/07/2024
Ouvir: 07:36
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Foto: Wagner Zacher

A frase “Eu sou mais forte do que eu!”, da escritora Clarice Lispector, está tatuada no antebraço de Bianca Benemann de Almeida moldando sua conduta de vida. Ela é mãe, Escrivã de Polícia Civil, idealizadora do Projeto Libertar e apresentadora do programa Elas por Elas.

Nascida em 26 de outubro de 1978, em Pelotas, filha de José Homero e Enilda Maria, Bianca cresceu na região do Porto, zona periférica de Pelotas. Imbuída pelos ideais de luta pelos direitos humanos, aos 19 anos ingressou na faculdade de Bacharel em Direito da Universidade Católica de Pelotas com bolsa parcial fornecida pela própria universidade. Para pagar o financiamento, começou a atuar como advogada por dois anos, sendo convidada pela Juíza de Direito Cristiane Diehl para assumir o cargo em comissão de Assessora de Juiz do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, cargo que exerceu por quatro anos nas cidades de Santa Vitória do Palmar e Pedro Osório.

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Em março de 2010, Bianca veio a perder o pai em decorrência de problemas renais e sem a possibilidade de cuidados paliativos. José Homero morreu em dor agonizante ao lado da filha que, a partir daí, virou ativista pela implementação dos cuidados paliativos a todos que necessitam, já que o Brasil é o 3º pior país do mundo para se morrer.

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Foto: Wagner Zacher

Em agosto do mesmo ano, Bianca ingressou por concurso público nos quadros da Polícia Civil do Rio Grande do Sul no cargo de Escrivã de polícia, assumindo um cartório de crimes sexuais, oportunidade em que, juntamente com a Delegada Vivian Sander Duarte, foi deflagrada a Operação Infante que à época prendeu quatro acusados do crime de estupro de vulneráveis. Após atuou na repressão qualificada a crimes ambientais e em quatro investigações de lavagem de dinheiro.

Nasce o Projeto Libertar

“As crianças são banquete em qualquer lugar do mundo”. É com a frase da escritora argentina Camila Sosa Villada que Bianca abre cada palestra do Projeto Libertar, que nasceu de uma conversa entre ela e o Perito Criminal do Estado de São Paulo, Héricson dos Santos, sobre combate a cybercrimes no ano de 2022.

O perito forneceu parte do material utilizado na elaboração da palestra que é a base deste projeto, montado pela escrivã Bianca Benemann com o apoio da policial civil Daniela Bozza, que também atua com a área de violência sexual e coordenado pelo Delegado de Polícia Regional da 29ª Região Policial, Dr. Vladimir Peukert Urach.

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O projeto Libertar foi implementado pela primeira vez em 29 de março de 2023 e, dado seus excelentes resultados, serviu de inspiração para elaboração do Projeto de Lei 66/2024, de autoria da Deputada Laura Sito, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, comissão que foi apresentado o Libertar em outubro do ano passado. De acordo com dados do Anuário de Segurança Pública de 2022; 74.930 vítimas denunciaram o crime para a Polícia, delas 6 em cada 10 tem menos de 13 anos, mas um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) mostra que apenas 8,2% dos estupros são reportados, estimando que os casos no estupro no Brasil tenham sido na casa de 822 mil.

Desses casos de 2022, ocorreram 4.084 estupros de vulnerável no Rio Grande do Sul conforme os dados do Anuário de Segurança Pública. Considerando os casos não registrados o número pode ter ultrapassado 48 mil.

O Libertar entra no contexto de prevenção de crimes sexuais reais e virtuais contra crianças e adolescentes. Funcionando através de palestras, para o público acima de 12 anos, em escolas de ensino médio e fundamental, Ensino de Jovens e Adultos (EJA), Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) e agora pela situação climática atual do estado está sendo implementado em abrigos para desalojados das enchentes.

Atualmente, o projeto foi implementado nas escolas das cidades de Camaquã, Chuvisca, São Lourenço, Tapes, Cerro Grande do Sul, Dom Feliciano, Caxias do Sul, São Jerônimo, Arambaré, Sentinela do Sul, Barra do Ribeiro, Sertão Santana e Cristal. Também, nos abrigos de vítimas da tragédia socioambiental de Rio Grande, São Lourenço do Sul, Cerro Grande do Sul, Arambaré, Camaquã, Sentinela do Sul. Sem expor a vítima, as denúncias podem ser feitas no ato da palestra com relato livre e, após, um policial irá registrar a ocorrência. Nestes casos, as vítimas não precisam ir até a Delegacia de Polícia.

Se o projeto virar Lei Estadual, será implementado em todas as regiões policiais e, segundo Bianca, servirá como forte arma para o combate de crimes dessa natureza, já que o Projeto Libertar na 29ª Região Policial fez com que aumentassem os registros de casos de estupros em 153%, retirando da cifra oculta esses crimes sexuais que eram desconhecidos dos órgãos de persecução penal.

“O projeto é a minha missão de vida, não tem nada para mim profissionalmente mais importante! ”, afirma Bianca sobre sua atuação no Projeto Libertar.

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Foto: Wagner Zacher

Elas por Elas

O programa Elas por Elas foi criado em 2020 com a jornalista Renata Ulguim e desde então aborda assuntos como empoderamento, empreendedorismo e liderança feminina. Transmitido toda quarta-feira, a partir das 19h pelo Youtube, Facebook e aplicativo da Clic Rádio. O programa também fica disponível no Spotify no dia seguinte. Em 2024, Bianca Benemann passou a ser a apresentadora.

O convite para Bianca apresentar o programa Elas por Elas veio da então diretora da unidade Senac Camaquã e atual diretora do Senac Caxias do Sul, Denise Sefrin, que foi anfitriã do programa por quase três anos.

Quando recebeu o convite, Bianca conta que sua primeira intenção foi negar, mas com o apoio de amigos e superiores ela resolveu aceitar, apesar de nunca ter apresentado um programa antes. A estreia de Bianca como apresentadora, que trouxe o tema “relações abusivas” gerou mais de 3 mil visualizações nas redes.

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Foto: Wagner Zacher

Com pautas baseadas nas suas vivências pessoais e profissionais, os temas são abordados por mulheres com capacitação na área e tratados de forma sensível e com responsabilidade.

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