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Quem matou Beatriz?


Por Kathrein Silva Publicado 09/08/2024
Ouvir: 04:51
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Foto: Divulgação

Leia a coluna de Bianca Benemann, escrivã da Polícia Civil e apresentadora do programa Elas por Elas, transmitido toda quarta-feira através da Clic Rádio.

A escrita é, por vezes, a única forma de elaborar as dores que rotineiramente nos deparamos. A cada ano aumentam os crimes contra mulheres, mas serão os agressores os únicos culpados? A que ponto a cultura patriarcal não nos mata?

A crônica que escrevo é um compilado dessas dores, uma forma de organizar o turbilhão de emoções de conviver com vítimas de violência.

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Heterocentrismo

Era um lindo dia de sol quando Joana conheceu Alencar, homem trabalhador, honrado e cumpridor de seus deveres. Foi amor à primeira vista, Joana finalmente se sentiu escolhida pela sorte. E no meio de tanta paixão, não é que veio uma barriga? Já, já Joana e Alencar montaram seu cantinho e tal não foi a surpresa quando descobriram que eram dois, ou melhor: duas, e de uma vez só, isso é que é felicidade.

Joana alegre, Alencar orgulhoso do duplo gol marcado. Roupinhas cor de rosa, lençóis cor de rosa, mamadeiras cor de rosa, tudo organizado para chegada das princesas. Joana, olhando o quartinho pronto pensou que se as filhas eram princesas, certamente seria ela a rainha, sorrindo ao imaginar a cena: uma neném no seu colo, outra no colo de Alencar, ambas dormindo e eles se olhando apaixonadamente.

Mas tudo começou a mudar numa madrugada fria de julho, quando Joana sentiu as dores do parto. No hospital, nasceu a primeira, grande, rosada e bem bochechuda, chamariam de Vitória a menina, mas a segunda nada de vir. Fazia toda força do mundo, enquanto o médico gritava:

“Deixa de ser mole! Para fazer gostosinho tu foi faceira, agora fica embromando.”

Joana, assustada, fez força, mas tanta força que Beatriz nasceu. Quando viu a criança tomou um susto, a menina era magrinha de um amarelo arroxeado assustador. Mas, mesmo assim, respirou aliviada, olhando suas meninas. Pronto agora elas iriam para o quarto cor de rosa e o pesadelo há pouco vivido cairia no esquecimento.

Mas foi só chegar em casa e Beatriz começou a chorar, Joana a acudir a menina e Alencar a perguntar qual seria a hora da janta. Que janta que nada, Beatriz não dava folga, chorava dia e noite, quando cansava, era Vitória quem acordava. Alencar cada dia mais irritado por não ganhar a atenção merecida como homem da casa. Ao contrário. Chegava em casa e a sinfonia de Beatriz não dava paz. Cansou rapidinho daquilo e foi logo dizendo a Joana que se mudasse para o quarto cor de rosa e fechasse a porta, pois ele, como homem trabalhador, tinha que dormir e não poderia se dar ao luxo de passar o dia inteiro em casa.

E assim foram os dias de Joana, privada do sono, viu ruir seu conto de fadas, nada de príncipe, nada de família. Sozinha, seminua, com seus peitos de fora a cuidar daquelas duas crianças, tendo por trilha sonora desse filme fracassado o choro contínuo de Beatriz.

Até que cega de cansaço, desesperança e abandono, num ato de fúria com a injustiça de sua vida, Joana balançou Beatriz, sacudiu o bebê, ao menos aquela criança tinha que parar de chorar, foi tanto o sacolejo que Beatriz silenciou. Joana, ao perceber o acontecido, em desespero gritava que havia matado a menina, e toda a ajuda a ela negada veio de uma vez só, mas agora para lhe amaldiçoar e, aos gritos de assassina, prender a maldita em flagrante.

É importante dizer que Joana nunca mais teve paz, afinal presidiária que mata filho tem mesmo que apanhar, é como estuprador em cadeia masculina, todo dia um pouquinho. Já Alencar, homem honrado e trabalhador, casou-se de novo e hoje a nova esposa cria Vitória a quem Joana foi condenada a prisão perpétua de nunca mais a ver.

E depois de tudo, só resta uma pergunta: quem matou Beatriz?

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